De Istambul a Rio de Janeiro, as lutas pelo comum nas cidades rebeldes


Pablo de Soto (org.)1 2

Fig. 1: “Eu tô lutando pelos 10% do PIB para educação e para saúde, assim como pelo aumento da frota e da fiscalização da capacidade máxima dos ônibus, que aqui não é controlado. Isso é muito importante para fazer imediatamente. Este grande garrafão de plástico cheio de água é para botar dentro as bombas de gás lacrimogênio. É para nos proteger do lacrimogênio, aprendi isso num video na Turquia. É da galera, um bem comum.”3

Essas palavras de um manifestante num protesto em junho no Brasil exemplificam com dramática intensidade o conflito atual, em torno da reprodução da vida nas metrópoles contemporâneas. O modelo hegemónico neoliberal imposto pelas elites financeiras, – onde o sucesso do capital não vem acompanhado de desenvolvimento para a maior parte da população, – está sendo confrontado pelas revoltas que proliferam nas ruas de quase uma centena de países4, desde 2011, no novo ciclo de lutas inaugurado nos países árabes do Mediterrâneo.
Nessa encruzilhada, a velha distinção entre o privado e o público não é mais capaz de responder à questão fundamental de como compartilhar recursos vitais. O comum emerge ao mesmo tempo como o objeto – a demanda de mais recursos para os serviços públicos de saúde e educação – e como a forma de organização – as acampadas nas praças ou, no caso extremo, a garrafa de água que a multidão usa para defender-se do gás lacrimogênio. A cidade, seja Madrid ou Reykjavík, Cairo ou Oakland, se torna o cenário genérico dessa luta.

Commonwealth como laboratório

Mapping the commons (Mapeando o bem comum) é um projeto de exploração e representação do bem comum urbano que começou em Atenas5 no final de 2010, ano em que a Grécia perdeu a sua independência financeira. Meses após o primeiro memorando do FMI e a implementação das primeiras medidas de austeridade, a capital grega foi chamada a desempenhar um novo papel. Atenas foi convidada a se tornar a cidade “beta” da crise, a enfrentar, pela primeira vez na Europa, o impasse do capitalismo da doutrina de choque. A metrópole parecia vulnerável, mas também incansável, e seu território foi aquele em que formas antigas e novas de resistência e contrapráticas estavam prestes a ser formadas, mas também desafiadas.
Inspirado pelo pensamento de Hardt e Negri no livro Commonwealth6, a iniciativa Mapping the commons of Athens teve como objetivo estudar e empoderar essas formas emergentes de resistência e produção de riqueza social. Partimos da hipótese do comum, elaborado por eles sobre a idéia de que, em nosso mundo atual, a produção da riqueza e a vida social dependem em grande medida da comunicação, da cooperação, dos afetos e da criatividade coletiva. O comum compreenderia então os ambientes de recursos compartilhados gerados pela participação de muitos, e que constituem o tecido produtivo essencial da metrópole contemporânea. Se fizermos esta conexão entre o comum e a produção, poderemos pensar na economia política, no poder, nos rendimentos e nos conflitos.
O projeto adquiriu a forma principal de laboratório temporário, onde se encontraram ativistas, artistas, cientistas sociais e estudantes de diferentes disciplinas para explorar e discutir os bens comuns da cidade. Uma busca que tomou a forma de um processo de mapeamento. Entendemos o método da cartografia segundo o esquema proposto por Deleuze e Guattari, e do modo como artistas e ativistas sociais a tem usado durante a última década, como uma atuação que pode se converter em uma reflexão, uma obra de arte, uma ação social. Se a cidade é “a fonte do comum e o receptáculo no qual ele flui” como os filósofos discutem, uma cartografia dos bens comuns de Atenas (uma cidade em situação de crise) seria capaz de realçar suas dinâmicas vivas e suas possibilidades de mudança.
Com esse objetivo em mente, a equipe se deparou com um desafio interessante para rastrear a riqueza da metrópole. Para olhar além do “público” e do “privado” e voltar-se para os afetos, línguas, relações sociais, conhecimentos e interesses da população. Para construir uma cartografia com base nos bens comuns, que em grande medida são abundantes, fluidos e instáveis, era necessário tentar responder a algumas perguntas difíceis: pode o comum ser “localizado” na metrópole contemporânea? Que novas práticas de “fazer comum” ou economias sociais surgiram como resposta à crise? Como o comum está sendo protegido das privatizações e das políticas draconianas de austeridade? Quais são as vantagens e os riscos da produção desta cartografia em tempos de agitação e de rebeliões?

Os tipos de bens comuns mapeados em Atenas foram baseados na coletividade, sociabilidade e no compartilhamento, pois incentivam o acesso livre e aberto. O banco de dados criado foi rico e amplo, variando a linguagem como principal bem comum aos repositórios de software livre; de estacionamentos ocupados e convertidos em parques autogeridos – como Navarinou no coração da cidade – às plataformas digitais para upcycling de objetos; da raiva contra as instituções financeiras e sua expressão coletiva nas ruas à rede de milhares de nós abertos da rede wi-fi comunitária da cidade; da massa crítica de ciclistas que exigem vias que priorizem as pessoas e os ciclistas às plataformas de P2P e de compartilhamento de conteúdos digitais; dos animais em liberdade como companheiros dos humanos ao grafite como expressão artística nas parades das ruas da cidade. Documentários de curta duração foram produzidos sobre os estudos de caso, formando parte de uma vídeo-cartografia interativa na internet.
A segunda edição do laboratório aconteceu em Istambul7, num momento em que a cidade estava sendo transformada radicalmente com megaprojetos e privatizações em larga escala, devido ao aumento das pressões das políticas e empreendedorismos neoliberais. Os bens comuns urbanos tais como os espaços públicos, o direito de habitar na cidade, o direito de acesso à informação e à liberdade de expressão nesses processos, e os espaços verdes estavam sob ameaça de ser reduzidos, numa intensidade jamais vista. Novas leis criadas para transformar locais sob risco de desastre natural foram utilizadas pelas autoridades para demolir e reconstruir as áreas de habitação no centro de Istambul, desapropriando os inquilinos ou removendo-os para habitações na periferia. A lei anunciando a venda das florestas estaduais fez com que as terras comuns e bosques se tornassem vulneráveis ante o agresivo desenvolvimento imobiliário.
Na data do laboratório, em novembro de 2012, um enorme número de projetos começou a transformar espaços públicos, praças e parques em áreas de demolição para ser transformadas, posteriormente, em espaços privados. O Parque Gezi, na praça Taksim, era o epicentro geográfico e simbólico dessa destruição, onde duas centenas de árvores seriam cortadas para construir um shopping center. Esta assumiria a forma do antigo edifício do quartel militar otomano no local, para abrigar atividades culturais e comerciais controladas pela iniciativa privada. A praça Taksim, um dos lugares mais importantes para a participação cidadã e para o exercício do disenso, foi transformada num canteiro de obras, para ser um espaço vazio, sem conteúdo. A vida foi esvaziada da praça, o cenário político das grandes manifestações estava à deriva devido ao longo prazo das obras, e dificilmente voltaria a existir após as alterações planejadas.

Nesse contexto, a oficina de mapeamento desempenhou um papel de intermediação, para compreender e revelar os conflitos em relação aos bens comuns de Istambul, levantar discussões em torno do próprio conceito de comum e, mais importante, participar da ação na cidade quando as lutas pelo comum estavam sendo realizadas, cartografando e produzindo vídeos desses momentos históricos. Para isso, o laboratório teve lugar inicialmente na rua, através, por exemplo, de entrevistas e filmagens em Fener-Balat-Ayvansaray, onde uma plataforma de discussão e ação foi criada com êxito contra a nova lei de transformação do espaço urbano. Em Tarlabasi, participando de uma festa de casamento curda na rua e de uma cozinha de apoio aos imigrantes. Na Universidade Técnica de Istambul, entrevistando professores e estudantes participantes de uma manifestação contra a desinformação e a censura televisiva dos protestos. E, claro, na praça Taksim, onde uma grande plataforma se articulava para defender o parque Gezi e a praça como o lugar da democracia da cidade, uma resistência que se transformou em acontecimento global poucos meses depois.

Cidades rebeldes conectadas

“Não é Turquia, não é a Grécia, é o Brasil saindo da inércia!
Acabou a mordomia, o Rio vai virar uma Turquia!”8

Antes de junho de 2013, essas frases seriam gritos improváveis, quase impossíveis. Depois de junho, qualquer pessoa que tenha participado nos protestos do Brasil reconhece nelas a voz das ruas. Os primeiros atos contra o aumento do passagem de ônibus organizados pelo Movimento Passe Livre em São Paulo colocaram a pauta da mobilidade urbana no centro do foco, e os jovens do Rio entraram numa forte sinergia global. Nessas mesmas duas semanas, as mídias sociais e os blogues ativistas tinham divulgado a formidável resistência do povo turco, na praça Taksim de Istambul. A luta popular contra a destruição do parque Gezi se tornou um ícone. E, de alguma forma, as lutas urbanas dispersas acharam seus gritos comuns. Diren Gezi, que significa “resistência Gezi”, entrou em contato com o movimento-coletivo Fica Ficus de Belo Horizonte. O movimento Salve o Cocó de Fortaleza gritava, “o parque Cocó é nosso parque Gezi”. Em São Paulo e no Rio, as ruas foram sendo ocupadas, entrelaçadas por seus gritos de guerra e palavras de revolta que viralizavam nas redes digitais.

Por que, de forma tão súbita, as lutas urbanas ficaram interconectadas? Por que duas contas turcas de twitter apareciam no grafo de visualização de redes do primeiro grande ato do Movimento Passe Livre em São Paulo? Por que as bandeiras brasileiras estavam presentes no parque Gezi?
Sem ter respostas definitivas, a explosão das lutas no Rio de Janeiro a partir das jornadas de junho transformou a metrópole carioca no exemplo mais nítido das cidades rebeldes9 de que fala David Harvey. Do “Maraca é nosso” (a proposta contra a privatização do Maracanã) aos Comitês Populares da Copa, passando pela proliferação de aulas públicas e as ocupações temporárias, o espaço urbano e sua gestão/uso como bem comum adquiriou uma pulsão coletiva sem precedentes:
Mas quando arrombaram a porteira da rua, muitos outros desejos se manifestaram. Falamos de desejos e não de reivindicações, porque estas podem ser satisfeitas. O desejo coletivo implica imenso prazer em descer à rua, sentir a pulsação multitudinária, cruzar a diversidade de vozes e corpos, sexos e tipos e apreender um “comum” que tem a ver com as redes, com as redes sociais, com a inteligência coletiva. Tem a ver com a certeza de que o transporte deveria ser um bem comum, assim como o verde da praça Taksim, assim como a água, a terra, a internet, os códigos, os saberes, a cidade, e de que toda espécie de “enclosure” é um atentado às condições da produção contemporânea, que requer cada vez mais o livre compartilhamento do comum.10

Mapeando o Bem Comum do Rio de Janeiro foi proposto no calor dessa insurgência multitudinária, trazendo a experiência do aprendido em Atenas e Istambul. Realizar, pela primeira vez, o laboratório no continente sulamericano tinha enorme interesse, por ser um território da maior relevância e experimentação política e social na última década. Adicionalmente, o Brasil, como toda a América Latina, tem características históricas e presentes próprias em relação ao comum. Essas relações particulares começam com a linguagem, ainda que a língua portuguesa não tenha uma palavra exclusiva equivalente a “commons” (inglês) ou “procomún” (espanhol). Porém, a história de Portugal tem fatos, processos e métodos, ao redor da propriedade ou da gestão coletiva, que estão dentro do campo semântico dos “commons”. De fato, na Inglaterra e na Espanha, foram proporcionadas mais práticas ao redor da ideia de comum, ao longo da história, principalmente em termos de governança. Mas a história portuguesa muda no momento da expansão colonial. Foi no Brasil, terra de encontro de culturas africanas, indígenas e portuguesas onde as “práticas do comum” foram e são importantes.
Esse comum advém de tradições ibéricas (faixanais, rossios, propiedades comunais), da cultura afro (quilombos, criação cultural coletiva, propriedades conjuntas) e indígenas (propriedade coletiva, malokas). Do mutirão ao conceito de ‘comunidade’ que substitui a palavra favela, o Brasil é uma celeiro de práticas do comum. E de fato, como sabemos a partir das pesquisas de Elinor Ostrom, não “existe” bem comum sem uma comunidade que cuide desse comum. O “commonning” – as práticas do comum – é uma condição necessária da existência do bem comum.

No Rio de Janeiro, o mercado e o capitalismo estão castigando o bem comum sem piedade. O capital depreda o comum, transforma-o em mercadoria, seja uma música funk criada de forma coletiva e que acaba numa gravadora internacional – ou proibida, quando a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) se instala numa favela – ou quando um espaço urbano coletivo é inserido na onda da especulação imobiliária. O comum é transformado numa grife, em mercadoria. Mas o poder público também pode ser um dos grandes inimigos do comum – como na privatização do Porto Maravilha, do Estádio do Maracanã ou através das remoções forçadas de favelas, como a Providência, Metrô-Mangueira o a Vila Autódromo. Essas questões, no contexto de uma metrópoles historicamente em estado de exceção como o Rio de Janeiro, foram o objeto do mapeamento.
O laboratório se desenhou como um processo orgânico, aberto, expandido que ultrapassara os muros da academia11. As ferramentas adotadas são as mesmas que as empleadas pelos movimentos como o 15M ou Occupy: blogue12, pads, fanpages e mapas, que incentivam o trabalho em equipe e o pensar coletivamente. O método13 do laboratório propõe utilizar parâmetros14 para caracterizar os bens comuns selecionados, que se tornam uma matrizcomparativa online que é um das maiores inovações do projeto.
Quatro meses depois de ter começado, alguns resultados da pesquisa15 são apresentados a seguir, sobre a demanda da mobilidade urbana como direto do comum, o papel de um espaço físico central na sua relação com a democracia, e umas práticas de fazer comum que emergiou com a revoltas: as assembleias populares.

Mobilidade urbana

Transporte é direito, não mercadoria. A frase reproduzida em centenas de cartazes durante os protestos contra o aumento das passagens não é trivial. Em praticamente todas as cidades do país, o serviço de transporte coletivo urbano é operado pela iniciativa privada. No Rio de Janeiro, há fortes indícios de que o sistema de transporte seja operado por um cartel, que detém o controle sobre os preços das passagens. Grandes financiadoras da campanha eleitoral do atual prefeito, as empresas de ônibus cobram essa fatura nos contratos, que prevêem uma sequência de aumentos nas tarifas – todas acima da inflação. A distinção entre o público e o privado se revela frágil em um contexto no qual se confundem os interesses das empresas e da própria prefeitura.
Enquanto o prefeito Paes anuncia os aumentos tarifários e o governador do estado, Sergio Cabral, utiliza um helicóptero para seus deslocamentos privados, a população sofre diariamente com ônibus precários, superlotação, atrasos e falta de segurança nos coletivos. Nos trens da Supervia, os usuários são tratados como gado. Nas barcas, o serviço foi privatizado em 1998 e, desde então, a maioria dos acordos estipulados nos contratos não foi efetivada. A travessia entre os terminais de Charitas e Praça XV é a segunda mais cara do mundo (fazendo-se um comparativo entre distância e preço total), ficando atrás apenas do passeio pela Estátua da Liberdade em Nova Iorque – lembrando que, no caso da travessia Rio-Niterói, não se trata de um passeio turístico, mas de um deslocamento pendular que centenas de milhares de trabalhadores e estudantes enfrentam cotidianamente. O transporte é hoje, de acordo com o IBGE, o terceiro maior gasto da família brasileira e mais de 37 milhões de pessoas não podem usar o transporte coletivo por não ter como pagar.
Nesse contexto, a afirmação do transporte público como direito se insurge contra o controle privado sobre o direito de ir e vir das pessoas. As lutas contra o aumento da passagem, que se amplificaram consideravelmente desde junho de 2013, colocaram em cheque a lógica mercantil que se encontrava, de um modo geral, naturalizada como algo evidente e imutável. Durante esse período de reivindicações, questionamentos e embates, foi se consolidando a noção de que a mobilidade urbana diz respeito fundamentalmente ao nosso direito à cidade e de que o controle privado sobre o sistema de transporte restringe esse direito, impossibilitando uma grande parcela da população de circular livremente pela cidade.
Nesse sentido, a mobilidade urbana emerge como um comum no próprio processo de luta pela sua retomada. As manifestações, assembleias e ocupações que passaram a fazer parte do cotidiano da cidade, desde junho, sinalizam a produção do comum tanto como objeto dessas lutas coletivas, quanto como forma de organização, buscando proteger o comum das privatizações das parcerias público-privadas e, ao mesmo tempo, instituindo novas práticas de “fazer comum”. É interessante notar, nesse aspecto, a centralidade do tema da mobilidade nesses espaços de produção do comum. Além de estopim das primeiras manifestações de junho, as questões relativas à mobilidade vem atravessando e constituindo os espaços de construção (do) comum. Isso ocorre desde a primeira ocupação da Câmara Municipal, passando pelas mais criativas manifestações e intervenções pela CPI dos ônibus – OcupaÔnibus, Casamento da Dona Baratinha16, Baratox, para citar apenas algumas que ficaram mais conhecidas – até a organização, após o fracasso da CPI, de uma Comissão Popular de Investigação dos Ônibus.
Se os conflitos podem ajudar a localizar a existência de comuns em disputa, em 2013, as ruas do Rio e do Brasil deixaram muito claro que a mobilidade urbana é hoje um dos mais importantes comuns em processo de acirrada disputa contra os interesses do capital.

A Cinelândia e a democracia

A Avenida Rio Branco, as ruas Araújo Porto Alegre, 13 de Maio e Evaristo da Veiga delimitam, no centro do Rio, talvez o maior ponto de encontro da cidade. Construída no início do século 20, sobre o terreno sagrado de um convento, para se tornar um antro cultural – a “Times Square tupiniquim” – a Cinelândia foi assim batizada porque receberia alguns dos primeiros cinemas da antiga Companhia Cinematographica Brazileira. Seu nome anterior, até hoje presente nas placas azuis das esquinas, é praça Marechal Floriano, e seu primeiro ocupante, um empresário espanhol que, inspirado na Broadway novaiorquina, empreendeu ali uma série de cinemas, teatros e casas de show.
O tempo verticalizou a cultura de massa e sequestrou teatros e cinemas para cativeiros cheios de lojas e pontos de venda. Os shoppings levaram embora o Cine do nome, deixando apenas o resistente Odeon. Sobraram na praça os palácios. Biblioteca Nacional, Museu de Belas Artes, Theatro Municipal e Câmara dos Vereadores. Toneladas de mármore, pedra e pomposidade cercados por grades e feitos para poucos. Incongruentes com a potência democrática daqueles metros quadrados de pedra portuguesa, no coração da cidade. Entre os gigantes político-culturais, acirraram-se as disputas e o perímetro urbano se transformou em palco para as promessas mais reacionárias e mais revoltadas dos comícios políticos e arena para os conflitos mais violentos e mais pacíficos da sociedade e seus mecanismos de repressão.
Alguns dias ficam gravados no chão da Cinelândia como os “100 mil17”, o “1 milhão18” ou os “200” da Ocupa Rio19/OcupaCâmara20 – ocupações urbanas que seguiram a tendência global de tomada local das praças como um exercício de democracia direta e horizontalização das relações humanas. Daqueles que quiseram fazer daquela praça uma casa comum, um espaço de troca permanente e uma fuga das grades que os aprisionavam fora das ruas.
Mais do que ponto de encontro, Cinelândia é passagem e é permanência. Ali passaram e passam todos os dias centenas de milhares de homens e mulheres perdidos entre a vastidão do Aterro do Flamengo e a imensidão da selva de concreto. Por ali passam o metrô, os ônibus e os taxis, carregando outras centenas de milhares de perdidos. Também desfilam os militares e bebem os foliões. Ali reúnem-se os tomadores de decisão e sofrem os indecisos.
A praça do comum é constantemente privatizada, mas eternamente resgatada, reocupada, reencontrada. O espetáculo não está nos cinemas. Está no no chão, nas ocupações temporárias. Os atores somos todos nós. E os conflitos são todos os nossos.
Assembleias populares

As assembleias populares são espaços de debate onde são levantadas e discutidas questões de interesse comum. Ao se pretenderem populares, procuram se manter abertas aos cidadãos em geral, tornando-se seus atores quando bem sucedidas. Ainda que não representem uma novidade, foi a partir das “jornadas de junho” e seus desdobramentos que o surgimento dessas assembleias conheceu um boom. Pipocando em diversas localidades do Brasil, em cidades de todos os portes, várias foram as assembleias que surgiram como uma reação, seja à postura do estado e dos grandes veículos de comunicação às manifestações que tomaram as ruas, seja à maneira como outros espaços de debate popular se organizavam e se organizam, seja à energia e ao recado impulsionado a partir das ruas. Uma das radicais novidades das assembleias é que são feitas no espaço público. O espaço público vira uma nova interface para a participação política. O espaço público vira espaço comum.
A Assembleia do Largo, no Centro do Rio, a Assembleia Popular Zona Sul III, no Largo do Machado e arredores, e a Assembleia Popular – Comissão Popular de Investigação dos ônibus, em frente à Câmara Municipal, são alguns exemplos das diversas formas em que se organizaram e/ou se organizam esses espaços.
Atraindo grupos os mais variados, de estudantes, professores, artistas, militantes de movimentos sociais, participantes dos cada vez mais numerosos coletivos, – e mesmo um grande número dos chamados “cidadãos comuns”, sem filiações prévias, pessoas não inseridas em qualquer instância organizada de participação política, incluindo-se aí cidadãos em situação de rua, – as assembleias populares parecem representar o desejo de protagonismo ou mesmo de participação direta de variados segmentos da população. Tal fenômeno expõe a tensão entre a energia participativa e a inércia política, entre o modelo representativo e a democracia direta, entre a verticalidade e a horizontalidade, entre o institucionalizado e o orgânico. A assembleia vira método, catalizador de processos.

Defendendo o comum do futuro

A escrita coral dos exemplos aqui apresentados é a primeira mostra de uma ontologia em construção, por definição incompleta, dos bens comuns da cidade de Rio de Janeiro. O que mais cabe no mapa carioca do comum? E na cartografia metropolitana, fluminense, dos bens comuns? E o que cabe no mundo que é local, no hiperlocal que é global, na glocalidade do Rio de Janeiro?
As respostas são múltiplas e podem ser enumeradas ad infinitum: a Baía de Guanabara e a luta dos pescadores pela sua defesa ambiental; as ocupações de índios urbanos propondo criar Universidade Indígena no antigo Museu do Índio (em frente ao estádio Maracanã); o Hospital Nise da Silveira virando um Hotel da Loucura aberto a novas experiências criativas; a luta do MST para chegar comida sem agrotóxicos para os moradores do coração da metrópole; a resistência das rodas de samba à privatização das ruas da cidade; o MarcoCivil para garantir a liberdade e neutralidade da rede na internet; o próprio pool genético da população…
Por isso, vale pensar o comum como imaginário com seus conceitos e definições abertas.
Possivelmente, tenha sido em Istambul – tornada em cidade rebelde – onde a multidão chegou mais longe nesta imaginação social, a partir da experiência de Gezi21. O arquiteto e doutor em geografia Ozan Karaman22, comparando as assembleias populares da Turquia com as da Espanha, Grécia e Estados Unidos se referia ao caso particularmente impressionante das práticas de commoning (fazer em comum) de Taksim como uma produção coletiva de espaço em que as pessoas já estavam produzindo ativamente um tipo diferente de vida urbana, um futuro comum urbano:
A luta de Gezi, portanto, não era simplesmente sobre a conservação de um bem comum existente, mas a defesa – por meio da produção – de um comum urbano futuro. Os ocupantes do Parque Gezi não foram apenas a esculpir um espaço de respiração protegido contra os imperativos do capitalismo, e aparelho repressivo do Estado, pois eles também estavam descobrindo e coproduzindo ativamente outras formas de espaço. É precisamente devido a este caráter aberto que o experimento Gezi pode contribuir para um repertório comum de estratégias na luta para expandir comuns futuros.

Se trouxermos esta reflexão sobre a defesa do futuro comum urbano para os acontecimentos do Rio de Janeiro em 2013, podemos pensar na luta dos professores do Estado23, ou por exemplo, o papel das ocupações em relação à segurança. A ocupação da Cinelândia – OcupaCâmara –, além de ter sido um espaço de encontro, de troca, de aulas públicas, de assembleias, teve o efeito, segundo Rodrigo Modenesi24, de pacificar de fato a praça, reduzindo o número de assaltos, graças ao clima de convivência e afetividade criado pela ocupação.
À frente da imaginação social dos bens comuns futuros, está a o passe livre25 ou tarifa zero26, uma ideia que tem como fundamento o entendimento de que o transporte é um direito fundamental. O direito à mobilidade urbana assegura o acesso das pessoas aos demais direitos, como saúde, educação e lazer. Para a maioria das pessoas, o acesso aos direitos fundamentais só pode ser concretizado através do transporte coletivo. Ou seja, para assegurar que o conjunto da população possa desfrutar dos direitos previstos na constituição, o transporte precisa ser público e gratuito.

Mas o desafio em andamento para a cidadania rebelde, de Istambul ou Rio de Janeiro, começa com continuar as conquistas27 do 2013, o ano quando se voltou a falar do direito à cidade, entendido como aquele que envolve a capacidade de a multidão controlar, dirigir, orientar o processo de urbanização, o direito de controlar os processos que determinam a reordenação e configuração da cidade. Em relações sociais urbanas dominadas pelas gangues do capitalismo financeiro, parece razoável pensar que uma parte das opções passa pela intensificação de um internacionalismo metropolitano de baixo a cima, que possa partir do comum como hipótese política para inventar novas formas de instituições permanentes na cidade. Novas funções legislativas, executivas e judiciares – que possibilitem um outro modelo de desenvolvimento baseado na defesa do comum.
Compartilhando táticas e aspirações, Istambul e Rio são laboratórios visíveis desse conflito que acontece numa escala global na cidade genérica contemporânea. Vale lembrar que o shopping center na Praça Taksim não pôde ser construído pelos seus poderosos promotores; as árvores do parque Gezi continuam em pé; e os 20 centavos do valor do aumento de passagem do ônibus no Rio de Janeiro (e muitas outras cidades no Brasil), multiplicados por milhões de viagens durante estes meses, não foram parar nas contas bancarias dos donos do cartel do transporte metropolitano e permanecem nos bolsos da população.

Referencias:

HARDT, Michael. NEGRI, Antonio. Commonwealth. El proyecto de una revolución del común. 2010.

HARVEY, David. Ciudades rebeldes. Del Derecho de la ciudad a revolución urbana. 2012.

DE SOTO, Pablo; DELINIKOLAS, Demitri; DRAGONA, Daphne, DE LAMA, José; ŞENEL, Aslıhan. Mapeando el bien común urbano. Un método paramétrico y audiovisual. 2013.